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23 de abril

Um certo dia, um senhor que rumava à sua felicidade, despediu—se com um "até logo", um abraço e um simples beijo.
E foi: "até já".
Horas depois, a sua voz telefónica disse: — esta tudo bem.
E assim foi.
A torre daquele monumento local que definia a identidade daquele povo e que fazia o coração palpitar, estava de novo presente.
Não sei ao certo quantas vezes mais aquele relógio deu horas. Quantas vezes o dedo medio do ponteiro do relógio do alto da torre do monumento cruzou as 12 badaladas?
Talvez o coração tenha contado essas badaladas e muitas mais. A cada uma delas, aquele senhor, sonhava e permitia que outros sonhassem. A cada badalada algo marcava presença.
Aquele senhor que sonhava, por ironia do destino, deixou de escutar aquele som, de ver aquela torre que apaziguava a saudade; deixou de sentir o calor daquele beijo; deixou de sentir o entrelaçar do abraço. Talvez num 23 de abril.... dia do livro!
Aquele senhor deixou o som do relógio da torre enquanto o seu relógio parou. Deixou aquela torre, com os respetivos ponteiros marcando o ritmo dos dias, os mesmos que para ele tinham agora um tempo diferente. Deixou a saudade do calor do beijo e do entrelaçar do abraço.
Aquele senhor, deixou muito mais do que o que levou e partiu.
Deixou sonhos e a vontade de sonhar e concretizar.
Deixou a cana para que outros continuem a pescar.
Deixou os valores e prioridades.
Deixou a lembrança a lembrar.
Deixou outras formas de comunicar e de o encontrar, através da saudades do coração.
Aquele senhor naquele dia, levou tanto e deixou tanto.
Talvez hoje, possamos agradecer a esse senhor. Dizer—lhe que o relógio não parou. O relógio continua no seu tic—tac sincronizado. A saudade marca o compasso. O calor ainda se sente, bem como o abraço entrelaçado.
Quiçá possa dizer—lhe que tudo continua, em sua homenagem. Tudo se perpetua e transforma. Tudo de orienta rumo à felicidade.

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