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Cargalhada

Era mais um dia, igual e diferente de todos e tantos outros.
Maria ou Manel, naquela manhã,
espelhava no rosto a carga de uma noite mal dormida. Uma noite a resolver tudo o que já fez e vai fazer. Uma noite partilhada com todos momentos, pessoas, lugares, sentimentos que ocuparam o seu pensamento.
Naquela manhã, de semblante carregado, os pensamentos, decisões e resoluções noturnas haviam desaparecido. Instala—se o pensamento de não ter dormido, não ter aproveitado aquela única noite, e perceber que muito se fez e nada fez.
Na correria matinal, com a carga interior espelhada em todo o lado, Manel ou Maria, pega no casaco e fica com mais carga, de tudo e de nada, de uma vida, daquele momento.
A postura altera—se mais ainda. As costas curvam ou ficam mais retas para suportar a carga que carrega. Respira fundo para suportar ou aliviar a carga e a tensão.
Volta a respirar fundo e, sem sair de casa, vive o dia mesmo antes dele acontecer.
Desloca—se para o trabalho, arrastando a carga, marcando o passo para a vida que passa sem passar.
Chega ao local de trabalho. A entrada, o corredor, as pessoas, as pausas com ou sem pausa, os gestos, frases e movimentos, as papeladas sem papel, os compromissos comprometidos. Talvez ainda carregue a pasta antes de sair do trabalho.
Volta a sentir a carga do casaco que, ao fim do dia, parece mais leve ou pesado.
Vai ao supermercado, e sem escutar escuta o som dos carrinhos, da música, os passos das pessoas, das moedas, das palavras que se sussurram, o click dos códigos de barras a passar no scanner, talvez até o som do alarme que soa por alguém se ter antecipado a passar no scanner humano. Chega a sua vez e, já à saída, carrega o saco das compras.
Com tanta carga, deseja chegar ao aconchego para finalmente respirar.
Em casa, junto ao espelho que amplia o minúsculo corredor, eis que, sem correr correndo, o espelho reflete e amplia o sorriso.
Naqueles dez minutos iniciais onde se verifica sem verificar que tudo esta no lugar, o sorriso parece ganhar vida e transforma—se em gargalhada. Maria ou Manel, ri sem saber de que ri, ri com o corpo e com coração, de gargalhada. E, eis que surge um pensamento: que grande cargalhada!

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