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Paradoxo do arrependimento


De acordo com o dicionário,o arrependimento acontece quando nos lamentamos ou quando temos pena por algo dito ou feito, ou por algo não feito e não dito; quando mudamos uma intenção ou ideia, quando desdizemos algo dito, quando mudamos. 
Todos os dias, nas diferentes áreas da vida, emergem discursos internos e externos de "arrependimento". 

Hoje, marquei um encontro com esse tal de arrependimento. 
Decidi mostrar-lhe o que ele pensa que sabe, do que sabe que pensa, o que ele pensa que fez e o que pensa que disse. 
Aproveitei a oportunidade para lhe falar do que ele não pensa que sabe, do que não sabe que pensa, do que ele não pensa que fez e do que não pensa que disse. 
Espero que depois desta explicação ilustrada fique mais ou menos arrependido e que no final me ajude a decidir sem arrependimento de me arrepender. Espero que entre o arrependimento tenha  tempo para (não) se arrepender e viver cada momento.

Sabes, arrependimento, permite-me que te trate assim, pois já nos conhecemos bem. Por vezes parece que sempre viveste comigo e que conheces a minha vida melhor que eu própria. Não sei se ajudas sempre, mas sei que estás lá ou mais cedo ou mais tarde podes chegar e dar o ar da tua graça.
Lembraste daquele dia em que, na rua, ajudei aquela senhora idosa a atravessar? Por breves instantes estiveste comigo.... Eu já estava atrasada para a minha vida e chegaste tu a dizer-me para dar a prioridade à senhora. Tudo bem, cheguei atrasada: dei passagem à senhora, fiquei retida na semáforo e na passadeira, encontrei aquela fila de autocarros que vão todos para o mesmo destino à mesma hora e... lá está: cheguei tarde!
E quando depois de ouvir várias pessoas falar sobre ti, decidi deixar de te dar ouvidos como habitualmente, e desatei a dizer tudo o que me vinha à mente, naqueles momentos em que as palavras se soltam mais depressa do que o que próprio pensamento? Como se não bastasse ter dificuldade em lembrar literalmente das palavras, lembrando apenas do conteúdo, fizeste-me arrepender da forma como disse, da forma como coloquei os braços, dos movimentos das sobrancelhas, até do ritmo a que respirei, mesmo que não saiba muito bem como tudo isso aconteceu.
Recordas aquela festa naquele sítio da moda, em plena época de exames, ajudaste a decidir e fomos à festa. Pois é, depois regressaste e disseste que deveria ter ficado a estudar, que teria tido melhor nota.
Noutras ocasiões, já fazes previsões e, para mais tarde não te arrependeres, dizes as coisas calma e tranquilamente. Fazes tudo no tempo e ordem esperada, respeitando os teus próprios princípios e os valores que regem a sociedade, contexto e pessoas com que convives. E mais tarde, estás de volta.
E quando decides carregar também o que deveriam ser, ou são, os arrependimentos dos outros?
E muito mais que neste momento prefiro nem lembrar....
Sabes, arrependimento, parece-me que tens um grande aliado: o tempo!
Socorreste do tempo para validar qualquer perspetiva que tenhas. No momento, naquele tempo, ajudas na decisão. E mais adiante, noutro tempo, já diferente, continuas a usar do tempo como argumento.
Em algum momento podes viver no tempo presente, em conformidade com o que se espera de ti?




Comentários

Briseis disse…
Foi um discurso muito civilizado. Às vezes o arrependimento não merece que o tratemos com tanta cortesia.
Escrevi há tempos a minha opinião sobre o arrependimento. Partilho-a aqui
http://domeupedestal.blogspot.pt/2016/07/nota-para-mim-mesma.html

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