Naquela cozinha em construção, a mesma que deixaste inacabada, naquele instante voltei a sentir. Entre dois dedos de conversa sobre planos de remodelação e (de)coração, fazia projeções, tomava apontamentos, escrevia e rabiscava.
Talvez saibas do que falo. Juntos fizemos projeções. Escolheram-se azulejos, mosaicos, tintas, paletas de cores, móveis, armários, arrumos, tomaram-se apontamentos.
Ali, senti a ausência da tua presença e a presença da tua ausência.
No olhar surgiu a chuva que não se manifestou. Vieram as imagens, daquela bomba de gasolina onde pela última vez nos beijamos, e dissemos "até logo"!
E assim foi: - Até logo!
Logo falamos, cada um no seu caminho, estrada do seu percurso, o mesmo que percorremos sozinhos e acompanhados um do outro e por outros, inúmeras vezes, vezes sem conta.
Longe de imaginar que aquela seria a tua última vez! Longe de imaginar que aquele seria o último beijo quente! Longe de imaginar que aquela seria a última boleia! Mas foi... Até já!
Há quem diga que ainda falas. Hoje disseram-me que o fazias através da trovoada, dos relâmpagos, daquelas luzes brilhantes. A ser assim, sê benvindo!
Lembro da trovoada e das tribos organizadas. Lembro do cheiro da lareira acesa, de olhar o céu por detrás da janela e tudo ficar mais claro por dentro e por fora.
Entre dias de sol, quentes, e dias chuvosos, frios, e outros tépidos, o tempo que o tempo tem vai avançando, na tentativa de enganar o tempo que o tempo não tem. Os dias passam, fazem-se marcas no calendário, assinalam-se datas e ainda assim, não sei precisar o dia do "Até logo!"
Seguiram-se dias de chuva e frio, fazendo juz ao "Abril águas mil". Terá sido também por isso que no naquele beijo estavas frio, gelado?
Seja como for, naquela cozinha e (de)coração, nos apontamentos, nos projetos, sentimentos e emoções, tal como na trovoada, em algum momento teremos o tempo de ter tempo, o nosso tempo, os nossos instantes, as nossas lembranças.
Assim sendo: "Até logo!"
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